Bravas: coletivo lança livro sobre vivências femininas nesta quinta (28)
No próximo dia (28) de novembro, a Brigada de Escritoras e Críticas Feministas (BRAVAS) vai apresentar a coletânea de textos “BRAVAS – Experiências de escrita coletiva”, idealizado, elaborado e organizado pelo grupo de escritoras e estudantes. O evento, aberto ao público, será no Mahalila Café & Livros, a partir das 18 horas, com a inscrição para participação feita via Sigaa.
Esse projeto é resultado e dá continuidade a uma pesquisa feminista, baseada em narrativas anti-patriarcais, anti-racistas, anti-capitalistas e anti-imperialistas que tem o objetivo de consolidar a dignidade das experiências e a indispensabilidade das vozes das mulheres. A escrita do livro, conjunta e crítica entre as autoras, procura estabelecer conexões históricas com as experiências das pesquisadoras.
Composto por Alaide Ribeiro, Ana Paola Ottoni, Estrela Santos, Giovanna Amaral, Hannah Cabral, Indira Gomes, Luna Carvalho, Rafaela Mirlys, Susana Guerra, Talita Alves da Cruz e Vanessa Amaral, o grupo de feministas surgiu em 2020, durante a pandemia de Covid-19, com o objetivo consolidar a dignidade das experiências e a indispensabilidade das vozes das mulheres.
A Agência Saiba Mais conversou com as autoras e integrantes do Bravas que contaram suas experiências enquanto escritoras, feministas, estudantes, pesquisadoras e artistas. Para elas, escrever entre mulheres é “Encontrar-se em um lugar de partilha e de confiança mútua.”. Além disso, o espaço possibilita a reflexão sobre a existência e resistência de mulheres artistas e ainda um espaço de segurança e livre de julgamentos.
“As Bravas, além de ser um grupo que possibilita a reflexão sobre e exalta a existência e resistência de mulheres artistas, tornou-se um espaço de experimentação da escrita que resulta na observação do nosso próprio protagonismo nesse campo particular. Antes de fazer parte do grupo, eu não considerava a possibilidade de me ver como uma mulher, negra, escritora (mesmo com a publicação de textos em revistas acadêmicos e repositórios institucionais, isto é, mesmo sendo já autora de uma mínima literatura acadêmica). Acredito que o Bravas contribuiu para com que eu enxergasse a possibilidade de escrever uma literatura diferente e, mais importante, a valorizar aquilo que foi escrito, o que, de certa forma, é valorizar minhas próprias experiências e existência.”, disse Alaide M. Ribeiro.
“Escrever não é fácil, e quem discorda disso está completamente fora de órbita. Uma tarefa ainda mais complicada é mostrar o texto ao mundo, e sentir-se completamente vulnerável diante do olhar do outro. De alguma forma, escrever entre mulheres atenua esse terrível sentimento. Escrever entre mulheres é encontrar-se em um lugar de partilha e de confiança mútua. É reservar tempo e espaço para escrever, sem que as obrigações do dia a dia se sobreponham. É falar do assunto mais simples e cotidiano ao mais espinhoso, e fazê-lo sem medo dos resultados. É resgatar a própria voz. É saber que sempre serei ouvida e compreendida. É aprender a abrir mão da autocrítica severa e parar de pedir desculpas pelo que fiz ou deixei de fazer. É ouvir opiniões gentis, mas não por isso menos críticas sobre o que foi escrito. É retribuir tudo isso às demais.”, continuou Giovanna Amaral.
“Escrever entre as BRAVAS foi a primeira vez que encontrei um espaço em que me senti segura, livre de julgamentos e verdadeiramente motivada a escrever como me sinto, como penso que sou, o que fantasio, acho que conheço e penso – para além das páginas de um muito escondido diário. E que mágico foi descobrir que para isso não precisaríamos usar de referências, citações ou definir um autor (percebam que está no masculino) que trabalhe cada palavra como um conceito. Nós éramos o conceito. Foi portanto uma verdadeira experiência, no seu sentido mais doloroso e transformador, pois nos deixamos atravessar pelos desafios e comandos das questões que nos eram propostas, nos obrigando a parar para refletir e expor segredos, desejos, revoltas e toda uma imaginação reprimida. Pois, afinal, o que nós mulheres tão jovens tínhamos a contar para o mundo?”, completou Hannah Cabral.
O que é o grupo Bravas
O grupo de estudo das escritoras e críticas feministas surgiu a partir de um projeto de pesquisa que começou a reunir inquietações de um grupo de estudantes e investigadoras da UFRN. Essas inquietações, segundo a professora Susana Guerra estão ligadas ao fato das mulheres serem diariamente confrontadas com as imagens tradicionais e redutoras que estão consolidadas em torno delas.

“Foi isso que fez com que nós propusemos procurar conhecer mais profundamente as imagens produzidas pelas próprias mulheres. Imagens essas que, pudessem desafiar e desconstruir as representações dominantes que nos interessavam. Essas representações estão normalizadas e são redutoras da diversidade feminina e humana.” explicou Susana em entrevista concedida a Saiba Mais.
Por isso, o grupo é dedicado em pesquisa feminista, firmado em narrativas antipatriarcais, anti-racistas, anti-capitalistas e anti-imperialistas, e com o objetivo de consolidar a dignidade das experiências das mulheres
“Então o que nós praticamos com o grupo é uma imersão na história das mulheres, no sentido de recuperar as suas experiências e tudo o que foi silenciado, ocultado e negligenciado. Nós fazemos encontros semanais, onde nos dedicamos ciclicamente a ver filmes, a ler obras de mulheres, depois nós procedemos a uma leitura crítica do que vimos, sob a forma de um pequeno texto escrito, manuscrito, que depois partilhamos entre todas.”, detalhou.
Além disso, o grupo também realiza encontro de escritas, feitos em primeira pessoa, como forma de praticar uma perspectiva feminista sobre a história para uma visão renovada do mundo. “Neste momento, nós estamos terminando os últimos detalhes de um pequeno livro que reunirá os nossos textos, que foram produzidos desde os primeiros encontros em 2021, quando o grupo foi formado em plena quarentena, para acolher também a experiência coletiva que, de certa forma, foi minada por esse período.”, finalizou.