Lixo internacional em praias não é exclusividade do RN, diz especialista
As correntes marítimas são densas massas de água que se deslocam pelos oceanos e carregam materiais como peixes e lixo, que é leve e fácil de ser transportado. Essa é a explicação mais provável por trás do lixo de origem estrangeira que tem sido encontrado em alguns pontos da Via Costeira de Natal.
“Estamos na borda do Oceano Atlântico. Há uma corrente muito poderosa que atravessa o Atlântico de um lado a outro, a Corrente Equatorial, que é muito forte e joga material bem no litoral do Nordeste. Lembra que tivemos o caso do óleo, que apareceu primeiro no NE? É por causa dessa corrente”, esclarece Maria Christina Araújo, doutora em poluição marinha e gestão costeira.
A pesquisadora explica que o Oceano Atlântico é uma via de transporte intenso de navios, tanto de carga, como os mercantes, quanto os de cruzeiro, turísticos. Há uma regulamentação que obriga que o lixo acumulado nesses veículos seja guardado e descartado apenas nos portos. Porém, há uma taxa que é cobrada com base no volume do lixo que for descartado pelos navios e, por isso, muitos fazem o descarte irregular em alto mar.
“Devem estar jogando no mar porque não há fiscalização. Lixos leves, como o plástico, são carregados pelas correntes e vêm para o litoral do Brasil. Não é exclusivo do Rio Grande do Norte, acontece na Bahia, Ceará, Fernando de Noronha e em outros estados. Isso também tem relação com os padrões de correntes locais que podem fazer com que lixo acumule em determinada praia. A Corrente Equatorial joga na costa do Nordeste e pela dinâmica das correntes locais, vai parar em uma das praias. Na Bahia, há mais de 20 anos, há registro de lixo internacional. Há várias ilhas desertas onde há uma quantidade enorme de lixo que vem do mar”, revela Maria Christina.

Ao todo, há apenas três fontes de lixo na praia:
- o lixo vindo do continente, deixado pela má gestão dos resíduos sólidos;
- o lixo deixado pelos usuários da praia, que descartam itens de uso pessoal, como alimentos e embalagens de produtos;
- e o lixo de fonte marinha.
A pesquisadora não descarta que, assim como o lixo de origem estrangeira veio parar nas praias potiguares e nordestinas, o lixo produzido no Brasil também tenha sido levado para praias do Norte global.
“Quem garante que também não há lixo brasileiro chegando na América do Norte? Lixo não obedece a fronteiras, é levado onde houver meio de transporte”, afirma.
Nada a fazer
A pesquisadora ressalta que não há nada a ser feito para acabar com o problema em termos locais, já que esse é um problema global que também se repete em outros países.
“Não há nada a ser feito, nem Natal, nem o Brasil tem condições de acabar com o problema, que é de escala global. Não há como monitorar o oceano inteiro para evitar o descarte de lixo estrangeiro. Esse é um problema global que precisa de regulamentação, fiscalização. O que podemos fazer como país, estado e cidade é cuidar do lixo que tem origem nossa. As pesquisas mostram que 80% do lixo que encontramos em praias tem origem terrestre e só uma pequena parcela é de fonte marinha. Minha sugestão para diminuir o impacto é que o município recolha esse lixo e dê uma destinação adequada. Está longe de nossa capacidade de resolução, mas o que não pode é deixar acumular porque a água vai levar para outro lugar. O poder público poderia recolher e catalogar, seria um dado interessante, observar o item, a origem. Todos sofrem com isso, não só o Brasil, que também pode estar exportando lixo para outros países”, pondera a pesquisadora.
Qual país é responsável pelo lixo?
É possível dizer que determinado país é responsável pelo lixo encontrado aqui? De acordo com Maria Christina Araújo, não. O país fabricante do produto pode não ser o responsável pelo descarte, o que torna a responsabilização um caso difícil de ser comprovado.
“É um caso semelhante ao do derramamento de óleo… até descobrir o navio que jogou, provar que aquele volume veio daquele navio, numa rota onde milhares navegam, é muito difícil. No caso do óleo, como foi um dano alto para os ecossistemas da costa, o Ministério Público Federal entrou com uma ação de investigação… no caso de acúmulo de plástico na praia não acredito que chegue a mobilizar o MPF. É uma investigação difícil e de alto custo, além disso, é preciso ser muito certeiro, você não pode sair acusando aleatoriamente”, ressalta a pesquisadora, que lembra que o plástico visível nas praias e oceanos são apenas a ponta do iceberg da contaminação dos ambientes, animais e do nosso próprio organismo pelos micro plásticos.
“As pesquisas passaram do macro para os micro plásticos. Estamos comendo e bebendo plástico, ele está contaminando nossos órgãos. Quanto mais lixo, maior a probabilidade de degradar o plástico, dele se quebrar. O plástico não desaparece, ele se fragmenta… esse é o problema, o macro é só a ponta do iceberg, há toneladas de partículas no ambiente”, conclui Maria Christina Araújo, doutora em poluição marinha e gestão costeira.