Bolo de cenoura (ou sobre os internautas que não leem o que está escrito)
Natal, RN 13 de jul 2026

Bolo de cenoura (ou sobre os internautas que não leem o que está escrito)

4 de dezembro de 2024
4min
Bolo de cenoura (ou sobre os internautas que não leem o que está escrito)

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A piada já é velha. A pessoa posta nas redes sociais e grupos de zap a seguinte informação: “Vendo bolo de cenoura. 5 reais cada fatia. Aceita todos os cartões e pix. Procurar Dona Maria na Rua das Conchas das 10h às 18h”. Logo em seguinte, a pessoa recebe mensagens perguntando: “O bolo é de quê?”; “Tem bolo de chocolate?”; “Qual o preço?”; “Aceita cartão de crédito?”; “Para comprar eu falo com quem?”; “Mas onde eu pego o bolo?”.

Piada velha sim, mas engraçada e, mais que isso, exata. Mostra com precisão cirúrgica a postura de boa parte dos internautas em redes sociais e grupos de zap diante de informações simples. Basta conferir (se tiver estômago, claro, eu particularmente não recomendo) nos comentários de reportagens e matérias em portais tradicionais, como UOL e G1. Quase todos destilam ódio e preconceito ou evidenciam a não leitura sequer da manchete. Exemplo: dia desses um desses sites publicou a manchete “Bolsa Família não pagará décimo-terceiro em 2024”, para logo um internauta comentar: “Não bastasse afastar esse pessoal do trabalho, o Bolsa família ainda vai pagar décimo-terceiro”. Mas a matéria diz exatamente o oposto do que o sujeito com ódio no coração entendeu.

Acredito que o ódio, somado ao preconceito, interfere na capacidade cognitiva de ler e entender uma frase, seja um título de matéria ou uma legenda simples. Só isso para explicar como o cidadão lê uma manchete “PIB do Brasil cresce cresce mais do que o esperado e tanto quanto a China” e comenta assim: “O Brasil não será jamais uma Venezuela. Fora PT”.

Mas temos que fazer autocrítica e análises do papel do jornalismo, principalmente o da grande mídia, nessa cultura de desinformação e capacidade cognitiva. As linhas editoriais anti esquerda vem produzindo manchetes aterradoras (e destruidoras do bom jornalismo), ampliando uma percepção equivocada da realidade. Como as que elogiam e detonam ao mesmo tempo, como a clássica “Carne está mais barata no Brasil, mas isso pode não ser bom”. Não seria bom para quem, cara pálida? Para o pessoal da Faria Lima que não quer ver pobre comendo picanha? Ou o recente vexame da Folha registrando que “Brasil tem melhor PIB em 13 anos e a Economia despiora”. Pois é, até criaram um termo para não afirmar que a Economia simplesmente melhorou.

Mas os papelões da imprensa são apenas uma vertente em um quadro complexo. Tanto que nos grupos de zap muitas ‘tretas’ acontecem porque quem lê não compreende o que outra pessoa escreveu. Uma pessoa critica o preço do abacaxi e outra reage falando que o abacate (não citado na mensagem original) faz bem para a saúde, portanto vale o preço. Daí para o quebra pau é um passo.

Há quem garanta que tudo passa pela falta de leitura. De maneira geral somos um país que lê pouco, apesar do vai e vem do mercado editorial. Estudantes brasileiros leem pouco, professores mal têm tempo e estímulo para ler, enfim. Mas mesmo esta é uma explicação imprecisa, pois em bolhas que faço parte (escritores, grupos culturais, participantes de editais, jornalistas, segmentos que em tese tem hábito e mesmo obrigação de leitura) a cultura de ler e não entender também é uma constante.

Enfim, esse texto veio, como diria Chacrinha, mais para confundir do que para explicar. Este humilde escrevinhador não tem explicação para esse fenômeno, talvez ainda associado a rapidez das redes sociais, que também afetaram a percepção coletiva das palavras e imagens. O tema permite abordagens e debates diversos e voltarei a ele em breve.

Em tempo: o bolo de laranja custa 3 reais a fatia. Aceita só dinheiro. Pode pegar lá na venda de Seu Chico, na Rua das Algas. Acho que é isso mesmo, não é?

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