Aos 91 anos, idosa cadeirante celebra tradição de votar em mulheres
Aos 91 anos, Diva Gomes, eleitora cadeirante e moradora do bairro Candelária, em Natal (RN), reafirma sua determinação ao votar e declara sua preferência por candidatas mulheres. Animada e bem-humorada, Diva foi acompanhada da filha, Lenira Xavier, para exercer seu direito neste último domingo (27). Para ela, o ato de votar é mais do que uma obrigação cívica; é uma celebração.
Diva, que teve as pernas amputadas devido a problemas de saúde, não abre mão de participar das eleições, mesmo diante das dificuldades de acessibilidade. Neste domingo, ela marcou presença na Escola Estadual Walfredo Gurgel, seu local de votação habitual, onde encontra amigos e conhecidos, tornando o momento uma verdadeira confraternização. “Ela adora encontrar pessoas, conversar. É uma festa, porque sempre encontra gente conhecida”, relata a filha Lenira.
O bairro de Candelária, apelidado de “Bairro de Velhos” devido à alta concentração de idosos, contribui para as longas filas na sessão de Diva. No entanto, segundo Lenira, Diva jamais reclama da espera. “Ela adora ver gente, bater papo. Votar é o ponto alto do dia para ela”, comenta a filha, que a acompanha sempre para garantir que o processo ocorra com segurança.
A importância de votar em mulheres
Uma eleitora assídua, Diva acredita na força feminina para trazer mudanças e defende que “a mulher faz o melhor”. Em suas próprias palavras: “Sempre votei em mulher porque elas entendem o que a gente precisa. Para mim, mulher é arretada e faz o que tem que fazer”.
A idosa, que já votou com entusiasmo em nomes de mulheres e até em figuras políticas conhecidas como Lula, acredita que o voto feminino é crucial para fortalecer representações justas e inclusivas.
Diva Xavier começou a votar pouco após a conquista do voto feminino no Brasil, garantida pelo Código Eleitoral de 1932. A liberação do direito ao voto e à candidatura para mulheres foi uma grande vitória, instituída em 24 de fevereiro pelo presidente Getúlio Vargas. Essa data é, até hoje, reconhecida como o Dia da Conquista do Voto Feminino no Brasil, pela Lei 13.086 de 2015.
Atualmente, as mulheres representam 52% do eleitorado brasileiro, segundo o Tribunal Superior Eleitoral (TSE), embora ainda enfrentem desigualdades. A consultora Roberta Viegas, do Senado, aponta que o avanço foi gradual e complicado.
“Nosso direito de votar e ser votadas só pôde ser exercido de fato muito recentemente. Depois de estabelecida a obrigatoriedade do voto feminino, houve períodos de eleição, mas com regras que não eram tão claras e com bipartidarismo. O caminho das mulheres para efetivamente ocuparem seu espaço de igualdade na vida pública ainda é longo”, afirma.
Um exemplo de vida e consciência cívica
A trajetória de Diva Gomes é marcada por trabalho árduo e dedicação à família. Mãe de quatro filhos, ela lembra com orgulho dos anos em que trabalhou como costureira e vendedora de doces para criar os filhos. “Costurava, fazia tapioca, cocada. Fazia de tudo. Foi com o dinheiro da costura que sustentei minha família”, relembra Diva, que agora desfruta de uma merecida aposentadoria. Sua filha Lenira a descreve como uma mulher batalhadora, cuja força e perseverança são inspiradoras.
Mesmo na terceira idade, Diva é uma leitora voraz e passa horas na rede lendo livros e jornais. Atualmente, está imersa na “Saga do Seridó”, obra que detalha a história e cultura da sua cidade de origem, Currais Novos. Essa prática, na visão de Lenira, é fundamental para manter Diva informada sobre política e o mundo ao seu redor.
A história de Diva Gomes ressoa como exemplo de determinação e participação ativa na vida democrática. Em meio a dificuldades de mobilidade e outros desafios, ela reafirma seu compromisso com o voto e o desejo de ser representada por mulheres.
Ao levantar a bandeira do voto feminino, Diva não apenas exerce seu direito, mas também estimula eleitores de todas as idades a persistirem na defesa de seus ideais e na busca por uma sociedade mais inclusiva.