Um grupo de cientistas da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN) descobriu um conjunto de pegadas consideradas únicas, nas proximidades de Sousa, na Bacia do Rio do Peixe, interior da Paraíba, na área conhecida como Vale dos Dinossauros. A descoberta é inédita e revela as primeiras características de um dinossauro do tipo pescoçudo, até então, desconhecido. O estudo foi publicado este mês, em formato de artigo, na revista Historical Biology.
“Alunos de geologia estavam mapeando esse terreno quando encontraram essas “possíveis pegadas” e me ligaram enlouquecidos! A Zarah tinha acabado de ingressar no mestrado e trabalhava com dinossauros pescoçudos. Ela, disse que tinha o sonho de trabalhar com pegada de dinossauros, então, foi realocada para fazer o levantamento no local“, revela a paleontóloga, pesquisadora e orientadora do trabalho, Aline Ghilardi.

O dinossauro, que pertence ao grupo dos Titanosauriformes, é considerado do tipo pescoçudo e viveu no local há cerca de 125 milhões de anos. Ele tinha cerca de 3,3 metros de altura (até o quadril), curta distância entre as patas e entre 12 e 15 metros de comprimento.
“As marcas estão muito bem preservadas e têm uma forma diferente de outros pescoçudos já encontrados antes. A pesquisa do mestrado foi, justamente, comparar e entender se as pegadas eram algo novo ou se pertenciam a algum tipo já conhecido. Mas elas eram diferente de qualquer outro já existente“, acrescenta Ghilardi.
A cientista explica que as pegadas são uma espécie de mosaico da transição pela qual a espécie, que se tornaria uma das dominantes no Hemisfério Sul, estava passando.
“Há dois tipos de Titanossauros que vão reinar no final do período Cretáceo no Hemisfério Sul, é um grupo importante e por isso estamos tão felizes com a descoberta. Esse é um novo tipo nunca antes descrito e em uma nova localidade. Não sabíamos que tinha fósseis nessa área, não havia mapeamento. Essa é uma das maiores pegadas do Brasil e a partir dela conseguimos calcular o tamanho“, detalha Ghilardi.

Pelas pegadas do dinossauro encontradas pelos pesquisadores, foi possível identificar que ele não tinha garras e que há diferença entre o tamanho das patas frontais e traseiras. A descoberta começou em 2022, quando estudantes de geologia da UFRN desconfiaram ter encontrado marcas do que pareciam ser pegadas de um grande dinossauro. Foi a professora de Paleontologia Aline Ghilardi, que confirmou a descoberta e identificou que o local era um novo sítio ainda não reconhecido. Ghilardi é a mesma pesquisadora que ajudou a mobilizar uma campanha e resgatar um fóssil de dinossauro brasileiro que estava na Alemanha há 30 anos.
Ao todo, foram descobertas sete pegadas de 70 centímetros. Até agora, não foi possível associar o dinossauro a uma espécie já existente, mas apenas a um grupo mais abrangente, os Titanosauriformes. Porém, a descoberta inaugura uma nova iconoespécie (marcas preservadas que não são parte do corpo do ser vivo, como as pegadas), a Sousatitanosauripus robsoni. O nome é uma homenagem a Robson Araújo Marques, também conhecido como “velho do rio”, que cuidava da região onde o material foi encontrado.

Os pesquisadores acreditam que o dinossauro viveu um momento intermediário da evolução dos Titanosauriformes, já que ao longo do tempo eles foram perdendo as garras e aumentando as passadas, que se tornaram mais largas, dando sustentação a um corpo maior.
No mesmo trabalho, os pesquisadores da UFRN também descreveram cinco pistas de animais pré-históricos que ainda não foram identificados. O que reafirma o ineditismo da pesquisa. O artigo tem Zarah Trindade Gomes como primeira autora e também é assinado por Rebecca Fernandes, Tito Aureliano e Aline Ghilardi.
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