Querido Papai Noel
Natal, RN 13 de jul 2026

Querido Papai Noel

21 de dezembro de 2024
4min
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Parelhas, 21 de dezembro de 2024.

Querido Papai Noel,

Tô escrevendo essa cartinha por alguns motivos especiais. Primeiramente, pra dizer que fui uma boa menina durante o ano. Trabalhei muito, estudei bastante, escrevi uma tese de doutorado, fiz novos amigos/as/ues, dei amor e atenção a muita gente, participei de eventos incríveis, palestrei para um monte de estudantes e para profes, também. 

Em segundo lugar, pra dizer que não vim pedir nada. Não para mim! Tenho feito um balanço da minha vida e consigo me dar conta e entender que na condição de uma Travesti vivendo em um país que mais mata pessoas Trans por anos seguidos, estar viva aos 47 é um enorme privilégio, ter trabalho (para além da prostituição), carreira, estudos formais e uma rede imensa de apoio afetivo, também. E como é! Então acho que essa carta é pra agradecer por tudo isso. “Viver é luxo”!

Porém, peço a gentileza pra fazer alguns pedidos para outras pessoas. Algumas eu nem conheço, mas sei de suas realidades. Em certas situações, termino portestemunhar cenas que não gostaria ver ninguém passando e isso me incomoda. 

Quero começar pedindo uma torta deliciosa de chocolates e morangos para a balconista que se assustou com o preço da fatia de torta que pedi dia desses na padaria e uma cervejinha bem gelada pra todos/as/es os/as/es profes que saem de suas escolas carregados de trabalhos e diários para corrigir e preencher.

Peço também que todo mundo tenha o direito de ser flechado/a/e pelo Cupido muitas vezes e possa viver história lindas. Queria que ninguém mais sofresse bullying, racismo, transfobia e tantas outras formas de agressão “recreativa”. Que mais mulheres escrevam e sejam lidas e reverenciadas como escritoras. E que nenhuma Travesti seja importunada por desconhecidos quando estiver na pracinha com sua galera. Que elas possam se expressar livremente. Com vez e voz! (e direito de ir ao banheiro

Outra coisa que queria pedir é que ninguém veja ninguém como propriedade e que os amores possam ser livres e genuínos. Que as músicas sejam menos pornográficas e menos agressivas com figuras femininas. Que o erotismo e a sensualidade nunca morram, eles temperam as relações.

Que Travestis tenham o direito de amar e serem amadas reciprocamente. Que elas possam frequentar escolas. E que possam ter muitos amigos homens sem que essas amizades sejam mal interpretadas. Que elas possam ser bem-vindas em qualquer lugar e respeitadas por serem quem são.

Parece que a lista só aumenta, né, Noel?! Mas acho necessário pedir tanto pra tanta gente. Do fundo do meu coração peço que não permita que a fé de ninguém seja imposta ou questionada. Que as crianças sejam letradas e possam enriquecer seus repertórios a partir das muitas leituras que fizerem. Que todas as pessoas tenham acesso à poesia e à música. E a abraços, desses que deixam a gente preso/a/e a ele por muito tempo.

Que ninguém sinta solidão ou rejeição. Que as dores não sejam ignoradas. Que a inclusão, a diversidade e o pertencimento seja uma realidade. Que as pessoas se orgulhem de ser quem são sem precisar da validação alheia. Que mulheres mais maduras possam pegar os novinhos sem serem ridicularizadas ou alvo de outras tantas zombarias. Abaixo o idadismo!!!

Por mais Madonnas, invasoras, escritoras. Por mais flertes, dignidade extraordinarices. Que os excessos sejam sempre de coisas boas. Que todo mundo sinta(-se) chei(r)o de afetos em qualquer lugar. E que ninguém seja invisível diante dos nossos olhos. Que os costumes não sejam mantidos para ferir. E que a tecnologia seja nossa parceira para a construção de dias melhores.

Por fim, peço “um pouco de malandragem” pra driblarmos os obstáculos com a sensação de que vencemos. Que os privilégios possam ser compartilhados. Acredito que exagerei um pouco no tamanho da carta e na quantidade de pedidos, mas veja, Papai Noel, como tem tanta, tanta, tanta, mais tanta gente que se recebesse um ou dois desses presentes que peço, seriam pessoas mais renovadas e felizes. 

Um abraço muito carinhoso, 

Bia Crispim de Almeida. 

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