Como Blanche Dubois, quem está no Facebook não quer realismo, quer magia
Natal, RN 13 de jul 2026

Como Blanche Dubois, quem está no Facebook não quer realismo, quer magia

10 de dezembro de 2024
5min
Como Blanche Dubois, quem está no Facebook não quer realismo, quer magia

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Aplicativos que tornam a pessoa mais jovem e sem imperfeições ou então colocam a pessoa, corpo e rosto, como aristocrata na Europa do século 17 ou como caubóis e mocinhas do Velho Oeste. Jogos que mostram letra por letra, o que o nome da pessoa significa e qual o futuro dela, à despeito da linguística e da história. Ferramentas que indicam qual o seu par preferido e “preveem” até quantos anos a pessoa vai viver. O Facebook, talvez a rede social mais popular no Brasil, se tornou há tempos um mundaréu dessas “ferramentas”. Inofensivas? Algo banal para passar o tempo? Talvez sim. E talvez não.

Como já analisei aqui neste espaço outras vezes, as redes sociais se tornaram parte considerável da nossa vida, principalmente após o confinamento da pandemia, quando foram válvula de escape para muita gente (eu incluso). As redes sociais tomam muito do nosso tempo, conectam e afastam pessoas, aprofundam ou destroem relações, geram demandas e servem como muro das lamentações, flertes etc. Nada mais normal que seja um tema que me atraia e mereça várias abordagens. Na verdade, acho que todo mundo deveria refletir mais sobre redes sociais e seu uso (tempo de utilização, prioridades e maneira como o faz).

É ponto firmado que cada rede tem sua característica. Há um meme que vaticina que o Twitter é a rede do ódio, enquanto o Instagram é a rede da vaidade. Tem lógica, devido à particularidade de cada uma e dinâmica dos seus usuários. Quanto ao Facebook, essa é a rede dos “coroas”, como apregoam os mais jovens, que já fugiram dela há tempos e a tratam como uma curiosidade jurássica, algo do tempo paleolítico, como o disquete e o e-mail do Ig.

Portanto, como eu repito de maneira até tediosa, o Facebook se tornou, pela quantidade de cinquentões e sessentões, um espaço de nostalgias e devaneios. Saudades de um tempo onde o internauta era jovem e portanto, a vida era mais bonita, mais simples, maravilhosa mesmo, como na canção “The logical song”, da banda inglesa Supertramp. No entanto, essa percepção (da juventude como época de encantos) é subjetiva e pessoal. Contudo, a tendência do pessoal do Facebook é coletivizar e problematizar essa nostalgia. De maneira que a rede se tornou um desfile de reclamações dos tempos atuais. Juntando isso com o citado excesso de aplicativos, jogos e ferramentas de “juventude” e “realidade paralela” temos o cenário perfeito para algo que me preocupa: a desconexão da realidade.

Dessa forma, atualmente milhões de usuários do FB passam mais tempo na fantasia do que na realidade. Compartilhando e curtindo frases, histórias e ensinamentos que jamais foram ditos ou escritos. Apreciando imagens geradas por Inteligência Artificial. Colocando como foto de perfil imagens delas manipuladas por IA onde estão, invariavelmente, mais jovens e glamorosas.

O quadro me remete a uma fala de Blanche Dubois, protagonista da peça teatral “Um bonde chamado desejo”, obra prima do estadunidense Tennessee Williams (transformada em filme com Vivian Leigh). Quase no final da trama, confrontada pelos outros personagens com as suas contradições e mentiras, Blanche grita: “não quero realismo, quero magia”. Mais que entrar para a história da literatura e do teatro, essa fala permite análises de ordens diversas, e ainda que escrita nos anos 1940, se encaixa perfeitamente na postura de muita gente diante (ou por causa) das redes sociais.

Manipular a realidade sempre tem um preço. Já ouvi de amigos e amigas histórias de decepções ao marcar encontro por aplicativos de paqueras (estilo Badoo e Tinder) e presencialmente perceber que a outra pessoa não era como na foto do perfil nem nas fotos enviadas. Já ouvi de um editor de livros que ele tem problemas para convencer autores e autoras a mandar para ele fotos sem filtros, para ilustrar orelhas de livros e artes de eventos.

Não que magia, no sentido poético, seja necessariamente algo ruim. Possivelmente seja até necessário para aguentarmos o tranco dessa vida. Mas não pode se tornar uma regra nem um imperativo. Muito menos uma constante nas redes sociais. Substituir a realidade pela fantasia pode ter um preço, cobrar uma fatura emocional ou social.

Em tempo: Blanche Dubois não teve um final feliz. Ficou sem o realismo e sem a magia. E ainda dependeu da bondade de estranhos, para citar outra linha clássica.

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