Parceria entre RN e Portugal conecta histórias de duas igrejas centenárias
Duas igrejas com histórias marcantes e significados culturais profundos se tornam símbolo de uma nova parceria entre Brasil e Portugal. De um lado, as ruínas da antiga igreja de São Miguel Arcanjo, em Extremoz, no Rio Grande do Norte, remontam ao período colonial brasileiro e abrigam os vestígios de um convento jesuíta, que marcou a fundação da cidade. Localizadas às margens da lagoa Guajiru, as ruínas testemunham séculos de transformações, mas enfrentam anos de abandono e degradação.
Do outro lado do Atlântico, a igreja de Santa Maria, em Estremoz, Portugal, é uma construção medieval que se impõe no centro histórico da cidade alentejana. Edificada no século XIII, a igreja desempenhou papel central na história religiosa e cultural da região, sendo um exemplo da arquitetura gótica portuguesa. Embora bem preservada, sua conexão com o passado colonial do Brasil ganha novos significados com o recente tratado de geminação entre as cidades de Extremoz e Estremoz.
Esse acordo, oficializado neste ano, não apenas fortalece os laços históricos entre as duas nações, mas também impulsiona projetos culturais importantes. Entre eles, está a restauração das ruínas da igreja de São Miguel Arcanjo e do Convento Jesuíta, que finalmente ganharão intervenções com recursos do PAC: Patrimônio Histórico, além de contar com o suporte técnico e cultural proporcionado pela parceria internacional.
Projeto de restauro ganha destaque
A restauração das ruínas de São Miguel Arcanjo é fruto do trabalho acadêmico do arquiteto potiguar Ramon Bezerra, idealizado durante sua graduação na Universidade Federal do Semiárido (UFERSA). O projeto, intitulado Manifesto face à inércia: restauro alusivo das ruínas da antiga igreja de São Miguel Arcanjo e convento Jesuíta na cidade de Extremoz/RN, foi desenvolvido ao longo de 18 meses e propõe uma abordagem inovadora para a preservação de bens históricos.
Segundo Ramon, a técnica de restauro alusivo permite evidenciar a autenticidade dos vestígios sem recorrer à reconstrução literal, respeitando o equilíbrio entre memória e modernidade. “O objetivo é criar uma leitura clara do monumento histórico, sem fabricar um falso histórico”, explica o arquiteto, que atualmente é mestrando na Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN).
O projeto inclui ainda a valorização da paisagem local, incorporando elementos da vegetação nativa da região. A professora Monique Lessa, orientadora do TCC de Ramon, destacou a contribuição teórica e metodológica do trabalho. “O projeto reflete um rigor técnico que assegura o direito à memória e ao conhecimento desse patrimônio”, afirmou.
Parceria internacional e financiamento
A viabilização do projeto ganhou impulso com o tratado de geminação entre Extremoz e Estremoz. A parceria internacional, intermediada pelo consulado português, resultou em articulações para captação de recursos e visibilidade do patrimônio histórico de Extremoz. Com o apoio da prefeitura local, o arquiteto conseguiu incluir o projeto no PAC: Patrimônio Histórico, que aprovou um aporte inicial de R$ 350 mil. Apesar de ser apenas uma fração do orçamento estimado em R$ 15 milhões, o recurso permitirá o início do processo de preservação, incluindo estudos arqueológicos e a criação de um parque arqueológico.
Além disso, um dossiê técnico foi submetido ao Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN), solicitando o tombamento federal das ruínas. Esse reconhecimento pode atrair novos financiamentos para as etapas futuras da restauração.
Impactos culturais e econômicos
A iniciativa é vista como um marco para a valorização do patrimônio histórico no Rio Grande do Norte. A prefeita de Extremoz, Jussara Sales, comemorou a parceria internacional como uma oportunidade de resgatar a história local e projetar a cidade no cenário internacional. “Esse tratado simboliza um avanço cultural e econômico que coloca Extremoz em evidência”, destacou.
O embaixador de Portugal no Brasil, Luís Faro Ramos, também ressaltou a importância do acordo. “Essa geminação reforça os laços históricos entre os dois países e é um instrumento para promover intercâmbios culturais e econômicos que beneficiem ambos os lados”, afirmou.
A secretária de Turismo do RN, Solange Portela, enfatizou o potencial turístico da restauração. “Além de preservar um importante patrimônio, o projeto amplia as possibilidades de divulgação de Extremoz em Portugal e em outros mercados internacionais”, destacou.
Próximos passos
Com os recursos iniciais garantidos e o apoio técnico de instituições nacionais e internacionais, o projeto avança para as etapas de execução. A expectativa é que a restauração das ruínas de São Miguel Arcanjo se torne um exemplo de preservação histórica no Brasil, unindo inovação, memória e cultura.
Para Ramon Bezerra, o impacto do projeto vai além da arquitetura. “Essa restauração tem o potencial de transformar a percepção sobre o valor histórico de Extremoz e gerar benefícios culturais, turísticos e econômicos para a região”, concluiu.