Tradição secular no município de Currais Novos, a Festa de Sant’Ana é um dos principais festejos culturais e religiosos do Rio Grande do Norte. Em 2024, na sua 216º edição, os festejos da avó de Jesus, segundo a tradição da igreja católica, reuniu centenas de fiéis de diversos municípios potiguares e reforçou a importância da fé para o seridoense.
Comemorado oficialmente no dia 26 de julho, data que marca o dia de Sant’Ana, os festejos duram uma semana e são encerrados com uma procissão que reúne centenas de fiéis e finaliza uma festa que reúne Feirinhas Culturais, novenas religiosas, missas e shows de artistas locais e nacionais. Em 2024, a festa começou na segunda-feira (15) e vai até este domingo (28).

Os seridoenses reencontraram a imagem restaurada da santa, que tem mais de 200 anos, e que passava por um serviço de reparação. Comprada em 1806, a imagem da figura religiosa talhada em madeira no estilo barroco, foi restaurada pelo artista Thierry Cavalcante, especialista em arte sacra.
A religiosidade e a fé pela vó de Jesus Cristo está ligada ao surgimento das principais cidades da região do Seridó Potiguar, como explica o historiador Matheus Barbosa Santos. Segundo o pesquisador, o nascimento da cidade de Caicó, a primeira do Seridó, em 1788, está ligada diretamente à “lenda do vaqueiro” e a uma graça alcançada pela santa.
“Nessa narrativa, um vaqueiro teve sua graça alcançada e ergueu uma capela em homenagem a Sant’Ana. Assim, a primeira capela erguida para Sant’Ana data de 1695.”, conta.
Já na antiga fazenda de Currais Novos, em 1808, o Capitão-mor Cipriano Lopes Galvão e sua mulher Dona Vicência Lins de Vasconcelos, mandaram uma petição para o Bispo de Pernambuco, declarando que queriam erguer uma capela em homenagem a Sant’Ana, o que foi feito.
“Dessa forma, o culto e devoção a Sant’Ana no Seridó data de séculos atrás, desde pelo menos do XVII, onde símbolos como o do vaqueiro e da fé cristã se confundem, uma veneração que atravessa o tempo e o modo como os sertanejos professam sua fé.”, explica.
A fé do seridoense
A festa, inclusive, foi reconhecida como Patrimônio Cultural Imaterial do Rio Grande do Norte, conforme a Lei n° 11.198/2022. Por isso, a Agência Saiba Mais conversou com o povo do Seridó que falou sobre a importância cultural do festejo para o povo potiguar.
O farmacêutico Anderson Bezerra, criado em Currais Novos, explicou os impactos econômicos que os festejos trazem para o município que passa o ano esperando para a tradicional comemoração.
“A Festa de Sant’Ana é muito esperada pelo povo de Currais Novos e pelo povo do Seridó. É uma festa que traz vários impactos importantes aqui pra região. Impactos econômicos na parte social e, principalmente, na parte religiosa. A cada ano a festa vem ganhando contornos maiores e uma estrutura maior pra abrilhantar a festa. Teve o festival cultural de Santana, com várias atrações, com a parte gastronômica muito forte. Teve também a tradicional feirinha de Santana e também os tradicionais pavilhões.”, detalha.

Além disso, segundo ele, o evento é uma oportunidade para quem vive fora da cidade voltar para seu local de origem e reencontrar parentes, amigos e a cultura que vem de berço.
“A festa é uma oportunidade do pessoal que é daqui da cidade que mora fora, de retornar à cidade, de ver antigos amigos, de ver antigos familiares e, justamente, sentir esse clima que é muito peculiar, que é muito característico aqui na região do Seridó, de nostalgia, de casa, de pertencimento aqui à região.”, conta com emoção.
O farmacêutico também fala da importância que a fé tem para o povo potiguar e serve de renovação para a crença do povo em dias melhores.
“A festa é uma oportunidade de renovar os votos religiosos aqui no Seridó e tem essa característica muito forte da fé. Durante a procissão que aconteceu ontem, que foi o encerramento da festa aqui em Currais Novos, o Padre Gabriel até disse que o povo do Seridó acredita onde ninguém mais acredita. E ele espera onde ninguém mais espera, para justamente mostrar o quão forte é a fé aqui para o povo do Seridó.”, lembra.